0509_post-will

Em evento promovido pela WILL, executivos abordam a necessidade de ações imediatas para acelerar o acesso de mulheres a cargos de liderança

São Paulo, 27 de junho de 2018 – O que a Unilever, a Bristol-Meyers, a Schneider Eletric, a Cargill e a Johnson&Johnson têm em comum? Apesar de pertencerem a setores diferentes da economia, as multinacionais são unânimes no entendimento da necessidade da adoção de uma política de cotas para mulheres, de modo a propiciar a sua ascensão aos cargos de liderança nas empresas. Cada um dos CEOs presentes ao evento “Convidando os Homens para o Debate: liderança feminina gera lucro”, realizado ontem, pela WILL (Women in Leadership in Latin America), em parceria com o Goldman Sachs, tem razões específicas para defender as cotas, mas todos estão de acordo de que, sem elas, o processo para que se atinja a equidade de gênero pode ultrapassar os 100 anos. Desde que foi criado, o evento já levou 30 executivos em nível de presidência, gestores das áreas de RH e Compliance para tratar do tema.

Criada há cinco anos, a WILL é uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo fomentar a liderança feminina no mercado de trabalho. Todos os anos, a ONG reúne CEOs de diversos segmentos com o objetivo de debater ações que possam levar as mulheres a uma situação diferente da que vivem hoje no mundo corporativo, dominado, em sua maioria, por homens em cargos de liderança. “Consistência, estabelecimento de metas, medição de resultados e transparência no processo são elementos fundamentais para atingirmos os nossos objetivos. Por essa razão, é importante reunir diversos setores, para que possamos entender as dificuldades encontradas por cada um deles para promover as mulheres e, juntos, pensarmos saídas para encurtarmos o tempo que levaremos para alcançar a tão desejada igualdade de gêneros”, defende a advogada Silvia Fazio, presidente da WILL e sócia-diretora do escritório de advocacia Norton Rose Fulbright.

Silvia destacou que tem sido crescente a participação e o interesse das empresas do setor privado em discutir e incentivar as iniciativas voltadas para a promoção da equidade de gênero no ambiente corporativo. “O que se observa é que as empresas estão se autorregulamentando, seja por meio da promoção da transparência de dados, como se viu com a participação na pesquisa realizada pela WILL, seja pelo estabelecimento de metas reais”, disse.

Maria Silvia Bastos Marques, ex-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional e atual presidente do Goldman Sachs no Brasil, empresa que, pelo terceiro ano consecutivo, apoia este evento da WILL, defendeu a realização de debates e a adoção de medidas para que se mude esse cenário de desigualdade entre homens e mulheres no ambiente das empresas, de modo que se identifique aonde está o gargalo que dificulta isso. Para ela, a adoção de cotas associada à flexibilização no trabalho, tendo em vista o fato de as mulheres serem multitarefas, são fundamentais para que se chegue a melhores resultados. “Não precisamos pensar como homens para sermos líderes”, concluiu no discurso de abertura do debate.

Tania Cosentino, CEO da Schneider Electric para América Latina, empresa que se destacou na primeira edição do ranking “Guia de Liderança Feminina”, realizado no fim do ano passado pela WILL, com o suporte técnico da Fundação Getúlio Vargas, é outra defensora das cotas. “Não devemos nos envergonhar por defendermos as cotas, caso contrário, vamos levar mais de 100 anos para chegarmos a uma condição de igualdade com os homens”, disse a executiva. Segundo ela, as dificuldades se iniciam na opção pelos cursos tidos como mais ‘masculinos’, como Engenharia e Tecnologia. “Há uma desproporção, pois, em geral, esses cursos são procurados por 80% de homens. Precisamos estimular as mulheres a se interessarem, a descobrirem também essas áreas, caso contrário, continuaremos a nos deparar com desculpas como ‘ah, mas não havia mulher preparada para ocupar o cargo nesta função’.”, justifica Tania, A meta da Schneider Eletric, até 2020, é ter 30% de mulheres em cargos de liderança. “As empresas precisam estar preparadas para a inclusão, no sentido mais amplo, inclusive, caso contrário, vão acabar jogando dinheiro fora”, disse.

Embora seja uma empresa que atue no ramo agrícola, tido como eminentemente masculino, a Cargill, segundo o seu presidente, Luiz Pretti, “já tem essa preocupação e não é de hoje.“ A Cargill é uma empresa familiar de 153 anos, o que, por si só, fez com que esse entendimento sobre a questão da igualdade começasse a ser discutido há mais tempo, por isso, estamos adiantados’, justificou. Ele informou que tudo isso foi acertado por meio de um protocolo, assinado pelo presidente mundial, comprometendo-se a ter 55% de  mulheres na empresa e 30% nessas posições de liderança, o que já ocorre.

Durante o debate, outro ponto em comum entre os executivos foi o entendimento do fato de que as empresas que têm matriz fora do Brasil encontrarem mais facilidades para adotar políticas de diversidade, sejam focadas no desenvolvimento de mulheres, ou nas questões raciais, de orientação de gênero e sexo ou até mesmo nas relacionadas aos deficientes físicos. Para Gaetano Crupi, CEO da Bristol-Meyers, “é importante trazer este aprendizado da matriz para ficarmos alertas sobre as práticas adotadas lá fora e podermos aplicá-las aqui e da melhor maneira”. Ele chamou à atenção, no entanto, para a necessidade de interação entre diversidade e inclusão: “ tudo deve estar debaixo do mesmo guarda-chuva e esses grupos devem estar mesclados, para tornar a discussão ampla e legítima’, defendeu.

André Mendes, CEO da Johnson &Johnson, explicou que, na indústria dos bens de consumo, a criatividade e a inovação são fundamentais, e que sem a diversidade se torna impossível obter bons resultados neste sentido. “O universo dos bens de consumo é liderado por mulheres, elas são as responsáveis pelas opções de compras, daí ser mais do que necessário ouvi-las e contemplá-las, pois isso gera resultados para a empresa. Aqui na J&J, temos como compromisso fazer com que o pool de candidatos seja composto por 50% de mulheres”, explicou.

Na mesma linha Fernando Fernandez, presidente da Unilever do Brasil, seguiu: “Uma empresa de bens de consumo precisa, necessariamente, ser contemporânea e entender as características sociais vigentes”, informou. De acordo com Fernandez, a Unilever já adotou muitas práticas que facilitam a ascensão de mulheres na empresa, como a disponibilização de um berçário. “Mas o desafio maior deve começar ainda mais cedo, com o estímulo não apenas nas empresas, mas também dentro das próprias famílias, de forma a mostrar às meninas, desde cedo, que elas podem – e devem – chegar aonde bem quiserem”, finalizou.