Grácia Fragalá é conselheira da Women in Leadership in Latin America (WILL) e diretora titular do Comitê de Responsabilidade Social da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo -FIESP, diretora titular do Núcleo de Responsabilidade Social do CIESP e vice-presidente do Conselho Superior de Responsabilidade Social da FIESP– Consocial.

Nesta entrevista, ela fala sobre a evolução da luta feminina por melhores condições de trabalho.

1) O Dia Internacional da Mulher foi oficializado pela Organização das Nações Unidas em 1975, mas a luta das mulheres por melhores condições de trabalho é antiga. Quais foram as primeiras manifestações para reivindicar os direitos no mundo?

É possível falar em luta pelos direitos da mulher a partir do século 18, com primeiras obras de caráter feminista, escritas por mulheres – como a inglesa Mary Wollstonecraft (1759-1797), autora do livro “Em Defesa dos Direitos das Mulheres”.

No século seguinte, o número de mulheres empregadas aumentou significativamente com a Revolução Industrial, e foi então que o movimento feminino se fortaleceu, realizando a primeira convenção dos direitos da mulher, em Seneca Falls, Nova York, em 1848. Ainda em Nova York, em 1857, aconteceu o movimento grevista feminino, que resultou num incêndio que ocasiou a morte de 129 operárias, justamente no dia 8 de março. A luta das mulheres pela equidade de gêneros ganhou impulso na virada dos séculos 19 e 20 e se estendeu ao longo de todo o século passado. Obras como “O Segundo Sexo”, de 1949, da filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), e movimentos femininos como o NOW – National Organization of Women, comandado pela norte-americana Betty Friedan, na década de 1960 ,causaram grande impacto.

2) Quais foram as primeiras manifestações pelos direitos femininos no Brasil?

De acordo com alguns estudiosos, datam da segunda metade do século 19, quando uma série de jornais editados por mulheres levantaram questões sobre a emancipação feminina por meio da reivindicação do acesso à educação. No início do século 20, por volta de 1907, houve também greves realizadas por costureiras, e, em 1917, com a busca por melhores condições de trabalho em fábricas, em sua maioria têsteis, onde predominava a força de trabalho feminina. Como exigências nas paralisações estavam a regularização do trabalho feminino, a jornada de oito horas e a abolição de trabalho noturno para mulheres.

No segundo período, na primeira metade do século 20, pudemos observar ainda uma nova geração de feministas — lideradas por Berta Lutz, em torno da Federação Brasileira para o Progresso Feminino (FBPF), e por Natércia da Silveira, em torno da Aliança Nacional de Mulheres — que buscavam, prioritariamente, o direito de voto, a defesa do trabalho feminino e da promoção social.

3) Quais foram as principais conquistas das mulheres brasileiras no ambiente corporativo, desde o chão de fábrica até a liderança de grandes corporações?

Como principais conquistas das mulheres, estudiosos citam a resolução de salários iguais para homens e mulheres, aprovada em 1919, na Conferência do Conselho Feminino da Organização Internacional do Trabalho (OIT); a aceitação de mulheres nas Forças Armadas, em 1980, na Força Aérea, em 1982, e no Exército Brasileiro, em 1992; a criação de cotas com participação mínima de 30% para candidaturas de cada sexo no Congresso Nacional, em 1996, e alguns outros exemplos já conhecidos.

Atualmente, as mulheres representam 52% da força de trabalho, mas sua participação em alguns setores da economia ainda é minoritária. Porém, é possível notar uma mudança com o aumento, por exemplo, de mulheres engenheiras, que cresceu 333%.

4) Na sua opinião, quais serão as futuras reivindicações femininas no ambiente corporativo?

De acordo com o relatório publicado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF), em 2018, o Brasil registrou uma reversão no progresso em direção à paridade de gênero. O último estudo publicado pelo WEF mostra melhorias nos salários em relação ao ano passado, quando a diferença entre os dois gêneros foi ampliada pela primeira vez em 10 anos. No entanto, o mesmo relatório indica que a representação das mulheres na política está diminuindo, assim como o acesso à saúde e à educação. O estudo mostra ainda que há proporcionalmente menos mulheres do que homens no mercado de trabalho, especialmente por causa do impacto da automação de empregos tradicionalmente ocupados por mulheres.
Neste contexto, para que as mulheres tenham oportunidades iguais no mercado de trabalho, há algumas questões que ainda precisam estar na pauta de discussões, como políticas de apoio à maternidade: flexibilidade de horários, home office, oferta de creches.

O impacto pode ser ainda maior, caso a oferta de instituições de cuidado para crianças seja destinada a regiões onde o trabalho feminino responde com mais força à disponibilidade de creches.
No Brasil, em 2017, o salário médio pago às mulheres foi 77,5% do rendimento pago aos homens, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Se mulheres e homens tivessem o mesmo salário, o Produto Interno Bruto – PIB mundial (a soma de todos os bens e serviços finais produzidos) cresceria 26%, de acordo com a estimativa da Organização Mundial do Trabalho (OIT).

5) Algumas empresas usam clichês como presentear as colaboradoras como flores e chocolates no dia 8 de março. Quais são as boas práticas que as empresas poderiam adotar para, de fato, engajar as funcionárias durante todo o ano?

O Dia Internacional da Mulher é mais do que uma comemoração, é um chamado à reflexão sobre a situação das mulheres e meninas em todo o mundo. Violência doméstica e sexual, assédio moral, agressões de toda ordem, pobreza, desemprego, baixa representação em espaços de poder e decisão, entre outros problemas, afetam especialmente as mulheres, por isso temos Equidade de Gênero como o 5º entre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Sabemos que a presença da mulher nas organizações está aumentando, mas ainda não é expressiva e, neste contexto, as empresas poderiam ser espaços importantes para boas práticas, envolvendo homens e mulheres. Quando essa temática é inserida nas empresas, sabemos que a repercussão ocorrerá também na família e no círculo de amizades, aumentando a compreensão de todos.

Algumas empresas têm optado por realizar cursos e capacitações com o objetivo de sensibilizar e engajar gestores e funcionários, têm desenvolvido pesquisas com dados desagregados por gênero e raça/etnia. Há também as que criaram ouvidorias e comissões de ética, especialmente para lidar com o assédio moral e sexual, tem ainda a alteração de termos e de materiais de comunicação, a revisão de procedimentos de recrutamento e seleção relacionados à saúde, com ampliação de licenças maternidade e paternidade, concessão de auxílio creche para mulheres e homens e reconhecimento de uniões homoafetivas, entre outras, desenvolvidas por empresas dos mais diferentes setores.

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