A recente pesquisa do Corporate Board Member, em parceria com Grant Thornton, sobre Biggest Issues for Public Companies Boards, realizada com conselheiros de empresas norte-americanas cotadas em bolsa, revelou uma interessante evolução com relação aos principais temas sobre os quais os Conselhos de Administração deveriam dedicar mais tempo para discussões.

Em 2013, os principais temas, por ordem de importância, eram planejamento estratégico de longo prazo, aquisições e fusões, sucessão do CEO, estratégia global e estratégia digital. Em 2019, o topo da lista é ocupado por tecnologias disruptivas e inovação, seguida por estratégia de crescimento, segurança digital, sucessão do CEO e oportunidades para aquisições e fusões.

A pesquisa também revelou que os principais temas para os quais os boards deveriam buscar assessoria externa referem-se a segurança digital, inovações disruptivas e planejamento da sucessão. Esses tópicos revestem-se de maior importância quando se constata que, na maioria das empresas cotadas em bolsa, os CEOs não têm experiência prévia nas duas primeiras áreas, daí a necessidade de recrutar para os conselhos membros mais jovens e com experiência nas áreas de segurança e inovação digital, inteligência artificial e conectividade.

No que se refere ao planejamento da sucessão, a questão da diversidade foi considerada extremamente importante, bem como o papel do presidente do conselho de administração em incentivar a efetiva contribuição por parte dos conselheiros, e em criar um inventário de competências existentes no âmbito dos conselhos e definir quais competências devem ser buscadas externamente.

As competências mais desejadas para recrutamento de novos conselheiros são experiência na indústria, expertise em finanças, diversidade de gênero, expertise digital/cyber e experiência como CEO. Embora não seja impossível que um só candidato reúna todas essas qualidades, a requerida experiência prévia como CEO ainda é um obstáculo à participação de mulheres, porque a maioria das posições de CEO em empresas americanas e no resto do mundo é ocupada por homens.

As empresas cotadas em bolsa têm recebido considerável pressão por parte de investidores, reguladores e outras partes interessadas, no sentido de melhorar a diversidade no conselho de administração. Recente estudo da consultoria McKinsey aponta que a diversidade e inclusão são vantagens competitivas, em particular no que se refere ao crescimento da empresa em novos mercados.

Essa pressão tem se mostrado particularmente efetiva no que tange às recomendações dos investidores institucionais e dos chamados ‘proxy advisers”, os quais orientam a votação dos acionistas institucionais nas assembleias gerais das empresas. Nesse sentido, tanto o ISS (Institutional Shareholder Service) quanto o Glass Lewis têm recomendado o voto contrário à eleição dos chairs e membros do comitê de nominação, em empresas sem representação feminina no conselho, enquanto que investidores institucionais têm expressado sua expectativa de que os conselhos tenham pelo menos duas mulheres dentre seus membros.

No Brasil, a paisagem ainda é dominada por empresas com controle estatal ou familiar, mas o tema da diversidade de gênero começa a se tornar mais relevante, com intensificação do recrutamento de profissionais do sexo feminino para conselhos de administração, em particular de pessoas com expertise nas áreas de finanças, conformidade e com prévia experiência executiva.

*Ieda Gomes é conselheira independente da Saint-Gobain, Bureau Veritas, Odebrecht e Exterran Corporation e membro do conselho da Women in Leadership in Latin America (WILL) em Londres.

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