Estamos muito acostumadas a ouvir discussões sobre a equidade de gênero que está pautada com muita força dentro das grandes empresas, preocupadas em dar as mesmas condições e oportunidades a homens e mulheres. No entanto, talvez poucas de nós paramos para pensar sobre a situação daquelas que não estão nos grandes centros urbanos ou no ambiente corporativo. Uma pesquisa realizada em  17 países no ano passado pela Corteva Agriscience ouviu 4.200 mulheres que trabalham em áreas rurais. São produtoras que gerenciam propriedades e funcionários, negociam com bancos, com fornecedores, com compradores de produtos agrícolas. E que realizam todas essas tarefas com muito mais dificuldade simplesmente por serem mulheres.

Para se ter uma ideia, das brasileiras ouvidas (500, no total), 80% disseram haver discriminação de gênero e 50% relataram ganhar menos do que os homens – uma percepção pior do que nos demais países, cuja média é de 40%. As narrativas dessas mulheres ao redor do mundo são diversas e tocantes.

A história relatada a nós por uma produtora rural de Minas Gerais espelha bem a realidade da mulher brasileira no campo. Filha de agricultores, teve de assumir a gestão da propriedade há 25 anos, após a morte do marido e com três filhos pequenos para sustentar. Ela lembra que houve pessoas que queriam se aproveitar da situação e ofereciam propostas de compra da fazenda por valor irrisório ou até diziam não querer tratar de negócios com uma produtora mulher. Não só ela tocou com muita competência a fazenda herdada, como transformou o negócio, antes uma plantação de hortaliças, numa propriedade que hoje produz frutas, cria gado e ainda é sócia de outra empresa de insumos agrícolas. O lado positivo da pesquisa é o de que há otimismo: muitas brasileiras disseram acreditar que a desigualdade de gênero tende a diminuir ano a ano e apontaram o que poderia ser feito para superar barreiras. Um dos caminhos é ensino e capacitação, segundo elas.

Com base nesse resultado, a Corteva Agriscience juntou-se à Fundação Dom Cabral e à ABAG (Associação Brasileira do Agronegócio) e criou a Academia de Liderança das Mulheres do Agro. Neste ano, 20 mulheres passaram pelo curso em sua versão piloto. A iniciativa deu tão certo que, em 2020, serão 300 vagas. A celebração da formatura das primeiras 20 produtoras e o anúncio das vagas ocorreram ontem, 08 de outubro, no Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio.

O incentivo ao protagonismo da mulher em todas as áreas não depende só do nosso empenho individual. Empresas e entidades têm em suas mãos um papel importante em criar programas que envolvam a sociedade para que a desigualdade de gênero no trabalho, pouco a pouco, vá diminuindo, independentemente de se a mulher está na cidade ou no campo. No caso da desigualdade, o mapa é o mesmo.

 

Vivian Bialski é diretora da Corteva Agriscience para América Latina e lidera iniciativas relacionadas a mulheres no agro.

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