Artigo: COVID-19 e resposta empresarial – Uma perspectiva internacional – por Ieda Gomes membro do Conselho da WILL Latam.

O dia 26 de fevereiro de 2020 está indelevelmente marcado em minha memória. Nesse dia, eu estava em uma reunião de trabalho em Paris e tomei o trem para um evento em Londres, voltando no dia seguinte para outra reunião.

O mundo ainda não havia acordado para as consequências da covid-19. Estações de trens e aeroportos lotados, eventos reunindo centenas de pessoas e total ausência de distanciamento social ainda faziam parte da rotina das pessoas viajando a negócios ou no trabalho cotidiano.

Até então, acreditava-se que a disseminação e os impactos da covid-19 estariam concentrados na China, afetando parcialmente a cadeia de suprimentos global e, aparentemente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a situação parecia sob controle nos 14 países onde foram constatados casos de contaminação. Em 25 de fevereiro, a OMS ainda tratava o caso como “public health emergency of international concern”, em lugar de decretar uma pandemia. A declaração de pandemia somente veio a ocorrer em 11 de março.

As empresas internacionais, em particular aquelas com suprimentos oriundos ou com filiais na China, previam cenários de atividades reduzidas em março, com normalização a partir de abril. A implementação de medidas de bloqueio por parte de governos somente começou na segunda quinzena de março. O impacto na economia mundial e no mundo empresarial somente será melhor entendido quando os resultados do segundo trimestre forem publicados. Mas, a despeito da ocorrência de outras pandemias em passado recente, a eclosão da covid-19 tem demonstrado a falta de preparação dos governos e empresas, no que diz respeito tanto aos impactos, como à disponibilidade de equipamentos de proteção e de unidades hospitalares capazes de tratar o enorme influxo de pacientes.

As prioridades das empresas têm sido no sentido de proteger a saúde dos empregados e das comunidades, e de manter liquidez suficiente para dar continuidade aos negócios em um horizonte imprevisível. No primeiro caso, trabalhar em casa, para serviços anteriormente desempenhados em escritórios, e medidas de prevenção para atividades essenciais, por exemplo, o uso de transporte rarefeito, medição de temperatura, uso obrigatório de EPI e disponibilização de testes. No segundo caso, a busca de liquidez tem resultado no controle estrito de custos, o acesso a linhas de suporte ativadas por governos e créditos do tipo “revólver”, o cancelamento ou redução de dividendos, a suspensão ou deferimento de incentivos de curto prazo, a redução das jornadas de trabalho e a suspensão de aquisições. A crise reforçou a necessidade de constante atualização de cenários de stress financeiro.

O novo normal, o trabalho em casa, apresenta desafios consideráveis: muitos não dispõem de mobiliário adequado, além da convivência com crianças e lides domésticas em um mesmo ambiente; muitos sentem falta da convivência com colegas, outros estão ansiosos quanto ao futuro. Empresas bem sucedidas têm reforçado a comunicação entre líderes e equipes, implementado horários diários, quando todos se reúnem por videoconferência, e realizado pesquisas de pulso para entender as preocupações dos colaboradores. A descentralização tem reforçado cuidados contra ataques cibernéticos e manutenção dos controles internos.

Segundo a mais recente pesquisa semanal do Departamento Nacional de Estatísticas da Grã- Bretanha, 80% da população prefere continuar em casa ou sair apenas para atividades essenciais e permitidas; 21% responderam que suas relações pessoais foram afetadas, enquanto 40% pensam que a normalidade somente será restaurada dentro de mais de seis meses.


Um dos grandes desafios é como conciliar a volta ao trabalho com a necessidade de uso de transporte público. As empresas de transporte de massa e os governos ainda não vislumbraram um sistema eficaz de prevenção e contenção.


Enquanto não se encontram vacina e tratamento eficazes, já se começa a desenhar o ambiente de trabalho do futuro para instalações industriais e canteiros de obras, com normas de distanciamento social, estações de desinfecção, telas e máscaras de proteção e restrições ao uso de cantinas e sanitários. Empresas estão desenvolvendo sistemas eletrônicos portáteis que emitem alarme quando dois trabalhadores estão muito próximos. No caso de escritórios, as empresas vão reduzir significativamente a ocupação de espaços, com repercussões para empresas de locação comercial. Um novo mundo, a conferir.

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