CINCO PERGUNTAS com KIKI MORETTI, CEO DO GRUPO INPRESS

De uma hora para outra, as empresas tiveram que aprender a organizar o fluxo de trabalho, manter a equipe estimulada e criar maneiras para ajudar na saúde física e emocional dos funcionários. Ao mesmo tempo, precisaram criar novas formas de se comunicar. Kiki Moretti, fundadora e CEO do grupo InPress e também uma das conselheiras da WILL, conta aqui as suas experiências.

Após um piloto bem sucedido, a InPress já discutia uma política de home office. Subitamente, como diversas empresas no Brasil, se viu obrigada a liberar o trabalho remoto. Como tem sido esse processo? Você sente que as pessoas estão satisfeitas trabalhando de suas casas?

De fato, a InPress já vinha trabalhando numa política de home office e já havia equipes que faziam rodízio entre seus integrantes. Em janeiro deste ano, mudamos o nosso escritório de São Paulo e quase 400 pessoas, de todas as áreas, trabalharam de casa, por uma semana. Funcionou super bem. Colocar 600 pessoas em home office não foi mais complexo por conta de estarmos bastante adiantados em sistemas tecnológicos que permitiram o trabalho remoto, como voip, vpn e laptops da empresa. Após três de meses de experiência, posso dizer que as vantagens são maior produtividade, concentração e disciplina. As equipes conseguiram criar processos e rotinas que possibilitaram esses ganhos. As desvantagens são a falta de convivência, a falta de limite nos horários de reuniões e consequente carga de trabalho ampliada. A saúde mental, nesse momento específico de isolamento social, tem sido uma grande preocupação. Mas estamos dando todo tipo de ao nosso time.

Você percebe alguma diferença no trabalho remoto entre homens e mulheres? Elas têm se queixado de ter ficado mais sobrecarregadas, uma vez que, para a maioria, a jornada é tripla?

As mulheres estão, definitivamente, mais sobrecarregadas que os homens. Ao liberarem as funcionárias domésticas, coube às mulheres o trabalho de casa, homeschooling para a maioria. Seria uma excelente oportunidade para o casal definir uma rotina de maior divisão de tarefas. Acho que as mulheres apreciam o trabalho remoto como opção para poder acompanhar mais de perto a educação dos filhos. Mas como rotina permanente é muito pesado e não vejo como solução definitiva.

Quais medidas a empresa tomou para facilitar o trabalho remoto e como a InPress planeja a retomada?

Várias medidas foram tomadas para facilitar o trabalho remoto – manual de integração, palestras motivacionais – para toda a empresa e específicas para a liderança -, outras sobre gestão à distância, engajamento de equipes, gestão do tempo, inteligência emocional. Também realizamos webinars com psicólogos para apoio ao time. Foi criado um programa de bem-estar com aulas diárias de meditação, ioga, exercícios funcionais, nutrição. Semanalmente, checamos as demandas dos funcionários por meio de pesquisas tipo pulse check para melhor endereçar os problemas que afligem nossa equipe durante o isolamento. Os três meses de experiência mostram que o home office veio para ficar, não é mais uma liberalidade da empresa, mas uma necessidade, uma realidade. Viagens não serão tão mais necessárias, problemas serão resolvidos de forma mais rápida, reuniões mais objetivas e sem atraso. Já estamos esboçando o plano de retorno – mesmo sem data para início -, e entramos em consenso que, no primeiro momento, manteremos os escritórios do mesmo tamanho. O distanciamento entre as pessoas vai nos obrigar a ter espaço. Com o tempo, vamos avaliar essa dinâmica, mas, definitivamente, nossos escritórios serão usados, no futuro, como showrooms, espaços que traduzam a cultura da agência, porém, usados mais para reuniões do que para o trabalho do dia a dia.

Embora o cenário econômico seja de crise, é nesses momentos que as empresas mais necessitam de processos ágeis de comunicação. Como as empresas têm se comportado, nesse mercado? Que recomendações daria a elas?

A comunicação alçou outro patamar durante essa pandemia. Finalmente, os executivos perceberam que comunicação tem papel fundamental para o negócio e não apenas como uma ferramenta de marketing. Não importa o que sua empresa produz ou vende, importa o que ela é, a sua reputação. A pergunta que venho fazendo é: como as empresas querem ser vistas quando tudo passar – pelo que fizeram ou pelo que deixaram de fazer. E a sociedade vai cobrar. Portanto, minha recomendação é que as empresas revejam o seu papel como cidadãs, ressignifiquem seu propósito real de existir e comuniquem claramente para todos os seus públicos – funcionários, consumidores, governos, órgãos regulatórios, comunidades em torno.

Você acredita que as empresas poderão relegar a questão da equidade de gênero a um segundo plano, fazendo com que caminhemos alguns passos atrás, em função da crise econômica e dos seus reflexos para as empresas?

Eu espero que não. Espero que a crise não coloque em segundo plano questões essenciais para a reputação de uma empresa como equidade de gênero e raça. Como disse, a sociedade está mais atenta e essa crise vai revelar a real identidade das corporações – se o que diz que é tem respaldo nas ações reais, se há um gap reputacional.

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